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Indústria automóvel europeia está a encolher por três motivos

Carro desportivo eléctrico cinzento num showroom moderno com janelas grandes e turbinas eólicas ao fundo.

A indústria automóvel europeia está a perder dimensão e influência. Em apenas dois anos, a União Europeia (UE) passou de líder global no investimento direto estrangeiro (IDE) para um papel bem mais discreto no mapa mundial do investimento.

Perante este contexto, a CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores da Indústria Automóvel) aponta três grandes fragilidades que estão a fragilizar a posição da Europa no panorama internacional da indústria automóvel.

Queda no investimento

O abrandamento é visível nos números: os fluxos europeus de investimento direto estrangeiro (IDE) sofreram uma quebra acentuada, com a quota da UE a descer de 34% em 2022 para apenas 10% em 2025.

Esta perda de atratividade enquanto destino de investimento compromete diretamente a capacidade europeia de inovar, escalar produção e manter a competitividade face a outros blocos económicos.

“Para atrair mais investimento e proporcionar estabilidade, as políticas da UE devem definir critérios de sustentabilidade claros e tecnologicamente neutros, que incentivem tanto os investidores estrangeiros como os nacionais e reforcem as cadeias de abastecimento europeias”, pode ler-se no relatório.

Um dos países que está a tirar partido deste enfraquecimento é a China, que é hoje o maior investidor mundial na indústria automóvel - um lugar que anteriormente era ocupado pela UE. Entre 2022 e 2025, a sua quota no IDE global quase triplicou, passando de 16% para 49%.

Preços elevados da energia

Apesar de os preços da energia terem recuado em 2022, os custos continuam claramente acima dos praticados em mercados concorrentes. Em média, a eletricidade para uso industrial na Europa custa cerca do dobro do que nos EUA e aproximadamente mais 90% do que na China.

“A Europa não pode liderar a corrida para a mobilidade do futuro com obstáculos significativos à sua competitividade, como preços de energia substancialmente mais elevados em comparação com outras regiões. Restabelecer as condições certas deve ser uma prioridade urgente.”
Archibald Poty, gerente de Assuntos de Mercado da CLEPA

No caso do gás natural - um insumo essencial para vários processos de fabrico e transformação ligados à produção automóvel - o desfasamento é ainda mais pronunciado. Para a CLEPA, esta desvantagem está a pressionar de forma severa a indústria automóvel e a colocar em causa a sua viabilidade na Europa.

Regulação rígida e pouco flexível

A estratégia regulatória da União Europeia (UE) tem sido criticada por ser demasiado restritiva, em particular ao condicionar a adoção de soluções tecnológicas como os híbridos plug-in. Ao passo que países como a China seguem uma abordagem mais diversificada - combinando veículos 100% elétricos e híbridos plug-in - a Europa tem concentrado o esforço quase exclusivamente nos elétricos.

Segundo a associação, esta orientação reduz as opções disponíveis para os consumidores e pode atrasar a transição energética do setor. A revisão das normas de emissões de CO₂ é apresentada como um momento decisivo para corrigir o rumo, adotando uma postura mais realista e tecnologicamente neutra.

Como enquadramento, este ano passaram a aplicar-se novas metas de emissões - 93,6 g/km - que colocavam a indústria sob risco de coimas que poderiam atingir 15 mil milhões de euros. Perante isso, a UE definiu uma alteração: passa a contar apenas a média acumulada de três anos (2025-2027). Mantém-se, ainda assim, o objetivo final de reduzir em 100% as emissões de CO₂ nos automóveis novos já em 2035.

O que falta para reforçar a competitividade da indústria automóvel europeia

Para além das medidas energéticas e regulatórias, a previsibilidade das políticas públicas e a rapidez dos licenciamentos tornam-se decisivas quando se disputa investimento com outras geografias. Em cadeias industriais longas - como as do automóvel - atrasos administrativos e incerteza regulatória podem pesar tanto quanto os custos diretos, afetando decisões sobre novas fábricas, expansão de linhas e localização de fornecedores.

Outro fator crítico é a robustez das cadeias de abastecimento europeias, incluindo o acesso a componentes estratégicos e matérias-primas, bem como a capacidade de produção local (por exemplo, em tecnologias ligadas à eletrificação). Reforçar a produção na Europa, apoiar a inovação e garantir condições de energia competitivas são peças que, em conjunto, podem ajudar a inverter a trajetória de perda de investimento e influência global.

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