Não é preciso um caça nem um míssil para pôr a segurança nacional em sentido. Nas últimas semanas, pequenos aparelhos voadores não identificados surgiram sobre alguns dos locais mais sensíveis de França - de instalações nucleares a bases militares - e bastam poucos minutos no ar para gerar um alerta sério.
O problema está numa faixa de altitude que durante anos ficou relativamente esquecida: as poucas centenas de metros entre as copas das árvores e os telhados, onde drones de lazer, quadricópteros comerciais e dispositivos improvisados podem causar impactos desproporcionados. Paris está agora a correr para tapar essa lacuna.
Low-flying drones over nuclear and military sites
O alerta mais recente em França não veio de bombardeiros de grande altitude nem de mísseis hipersónicos. Veio de drones de consumo a voar baixo, muitas vezes quase silenciosos até estarem praticamente por cima do alvo.
Segundo fontes da defesa, estes aparelhos já sobrevoaram:
- Mourmelon, um grande campo de treino do Exército francês
- Um comboio ferroviário de carros de combate Leclerc perto de Mulhouse Nord
- A unidade da Eurenco em Bergerac, que produz propelentes e explosivos
- L’Île Longue, base dos submarinos franceses com mísseis balísticos e armas nucleares
- Hubs de logística e informações, como o local inter-ramos de Creil-Senlis
Cada voo é curto. Até agora, nenhum causou danos físicos. Mas, vistos em conjunto, parecem o equivalente a alguém a experimentar puxadores numa rua escura.
As autoridades de segurança francesas vêem um padrão de voos de sondagem, como se um actor desconhecido estivesse a “testar fechaduras” em locais críticos, mais do que a atacar.
No terreno, as respostas por vezes soaram improvisadas: “rifles” portáteis de interferência, caçadeiras, patrulhas montadas à pressa. São medidas de último recurso, não um escudo sustentável para infra-estruturas de alto valor que exigem protecção 24/7.
A conclusão no meio da defesa francesa foi directa: a baixa altitude tornou-se um ponto cego estratégico.
Emergency order: two TRUSTCOMS systems to plug the gap
A 26 de Dezembro de 2025, a Direcção de Manutenção Aeronáutica activou um procedimento de “emergência operacional” e encomendou dois sistemas anti-drones à empresa francesa TRUSTCOMS. Este processo acelerado é raramente usado, o que indica que os militares consideraram a situação demasiado urgente para esperar por concursos demorados.
Infodrone: spotting the intruder
O primeiro sistema, o Infodrone, centra-se na detecção e identificação. Explora o sinal “remote ID” que a maioria dos drones civis já tem de emitir na Europa. Esse sinal funciona como uma matrícula digital, transmitindo dados básicos de identificação e de posição.
Segundo a TRUSTCOMS, o Infodrone consegue detectar e localizar cerca de 95% dos drones comerciais que usam esta funcionalidade. O conjunto é compacto e rápido de instalar, sendo adequado para:
- Proteger locais fixos como fábricas, depósitos ou bases
- Garantir a segurança de eventos temporários de grande visibilidade
- Fazer uma verificação rápida inicial do tipo “é amigo, operador legal ou desconhecido?”
O Infodrone dá aos comandantes algo que muitas vezes falta em incidentes com drones: clareza quase imediata sobre o que está a voar e de onde vem.
O sistema não dispara nem emite, por si só, sinais disruptivos. O seu principal valor é encurtar o tempo entre “vemos algo no radar” e “sabemos de quem é este drone e se devia estar aqui”.
DroneBlocker: shutting down hostile aircraft
A segunda ferramenta da TRUSTCOMS, o DroneBlocker, é a parte mais “musculada”. Usa interferência (jamming) para cortar ligações rádio e sinais de navegação por satélite (GNSS) usados pelos drones.
Uma vez fixado o alvo, o DroneBlocker pode perturbar:
- A ligação de controlo entre o piloto e o drone
- A telemetria usada para comando e dados
- GPS, Galileo ou outros sinais de posicionamento que guiam voos autónomos
O fabricante afirma que consegue neutralizar até 99% dos drones dentro do seu envelope de actuação. Esse número depende de factores do mundo real, mas o objectivo é claro: forçar o aparelho a aterrar, a ficar a pairar sem controlo, ou a activar um regresso de segurança que as autoridades possam acompanhar.
Uma característica relevante é a capacidade de distinguir drones “amigos” de drones hostis. As forças francesas estão a usar cada vez mais os seus próprios UAVs para reconhecimento, vigilância de colunas e protecção de bases. Uma bolha anti-drone que derrube tudo seria impraticável. A discriminação entre drones “azuis” e “vermelhos” tornou-se um requisito central.
O DroneBlocker foi pensado para cegar e silenciar drones hostis, permitindo ao mesmo tempo que UAVs militares autorizados continuem a missão no mesmo espaço aéreo.
A patch, not a full cure
As autoridades sublinham que o Infodrone e o DroneBlocker não substituem os grandes programas franceses de longo prazo contra UAVs. São uma solução-tampão, preenchendo aquilo que um oficial descreveu como “um vazio imediato e desconfortável”.
A ideia é dar mais ferramentas aos comandantes enquanto o país desenvolve uma arquitectura mais ambiciosa e nacional contra drones, tanto em território doméstico como em operações no exterior.
Os planeadores franceses também tiveram de aceitar uma mudança de mentalidade: a superioridade tecnológica já não se decide apenas em grande altitude, com caças avançados e sensores de longo alcance. Também se joga na faixa confusa entre florestas e telhados, onde um quadricóptero de £1.000 pode desencadear um alarme de segurança numa base nuclear.
A crowded anti-drone toolbox
A França está longe de partir do zero. Os três ramos das forças armadas já dispõem de vários sistemas anti‑drone em diferentes fases de implementação ou testes.
| Service | System | Main role | Typical use |
|---|---|---|---|
| Air and Space Force | MILAD | Detection, tracking and jamming | Protecting air bases and sensitive sites |
| Air and Space Force | BASSALT | Detection and neutralisation with radar and optics | Large events, base protection |
| Joint / DGA | HELMA‑P | Laser “hard kill” against drones | Physical destruction at short range |
| Army | PROTEUS | 20 mm cannon with smart fire control | Close protection of units and fixed points |
| Army | NEROD jammers | Portable neutralisation of commercial drones | Patrols, convoy security |
| Joint | Infodrone & DroneBlocker | Identification and jamming | Rapid reinforcement at critical locations |
Helicópteros equipados com pods de guerra electrónica também podem ser destacados para criar “bolhas anti-drone” temporárias sobre áreas específicas.
O desafio agora é menos inventar novos gadgets e mais garantir cobertura, tempo de reacção e coordenação. Drones podem surgir quase sem aviso, cumprir rotas pré-programadas, ou operar em enxames desenhados para saturar sensores.
Generals warned of swarm scenarios
Os deputados franceses foram alertados para este problema meses antes dos incidentes recentes. Em audições parlamentares no outono, o chefe da Força Aérea e do Espaço, general Jérôme Bellanger, descreveu exercícios em que os militares testaram as suas defesas contra enxames de drones.
O veredicto foi cauteloso, mas inquietante: os resultados foram “perfectible”. Em linguagem simples, os sistemas actuais podem ser esticados ao limite - ou contornados - por um grande número de UAVs baratos e coordenados.
Oficiais superiores falam agora abertamente de um futuro em que ataques de saturação com drones descartáveis se tornam tão comuns como foram, noutros tempos, as barragens de artilharia.
Esses ataques nem precisam de destruir pistas ou hangares para criar caos. Uma vaga densa de drones pode obrigar operadores de radar a filtrar centenas de trajectórias. Equipas de segurança podem correr atrás de múltiplos falsos alarmes por toda a base. Um único aparelho que passe pode filmar, perturbar comunicações ou largar uma pequena carga.
What “remote ID” and jamming really mean
Para quem não é especialista, parte da terminologia da guerra anti‑drone pode parecer pouco transparente. Duas das expressões mais importantes neste movimento francês são “remote ID” e “jamming”.
Remote ID é, no essencial, a identificação digital dos drones. Pelas regras europeias, a maioria dos UAVs comerciais tem de emitir dados como número de série, posição, altitude e localização do operador. Sistemas como o Infodrone escutam esses sinais. Quando detectam um drone sem remote ID ou com parâmetros suspeitos, podem sinalizá-lo como potencial problema muito antes de chegar a uma vedação.
O jamming, usado pelo DroneBlocker e por outros sistemas, funciona ao inundar frequências rádio ou bandas de navegação com ruído forte. Se for bem executado, o receptor do drone deixa de “perceber” comandos ou dados de satélite. Os planeadores militares têm de calibrar isso com cuidado: potência excessiva ou uma frequência errada pode interferir com comunicações civis ou com sistemas amigos nas proximidades.
How a real incident could unfold
As autoridades de defesa costumam ensaiar cenários no papel. Um provável seria assim: ao início da noite, numa instalação nuclear, sensores de segurança registam um objecto pequeno e lento a aproximar-se a baixa altitude. O radar mostra um rasto fraco. As câmaras captam luzes intermitentes, mas não conseguem identificar o modelo.
Uma unidade Infodrone faz de imediato varrimento à procura de sinais de remote ID. Se encontrar um drone legal, registado, de um empreiteiro de manutenção e a voar numa rota previamente autorizada, o alerta termina depressa. Se não surgir um sinal válido, ou se os dados apontarem para um operador não autorizado fora do perímetro, o nível de ameaça sobe.
Nesse ponto, uma estação DroneBlocker é orientada para a trajectória. Os operadores interferem a ligação de controlo e o GNSS em torno do intruso, obrigando-o a derivar, aterrar ou regressar a casa por um caminho monitorizado. As equipas no local podem então recuperar o hardware e, com sorte, rastrear quem o lançou.
Essa resposta em camadas - detectar, identificar e depois neutralizar - é exactamente o que a França está a tentar normalizar antes que um voo oportunista se transforme numa crise real.
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